16.5.06

HERMÈS


Seus lenços são estampados com cavalos, carruagens e escudos reais. Suas bolsas e acessórios, cujos preços são comparados a carros de luxo, são escandalosamente laranjas em formatos estranhos. Seriam cafonas se não fossem assinadas pelo bom gosto da marca francesa Hermès (se pronuncia “êrmés”), sinônimo mundial de sofisticação em artigos de luxo com suas peças elegantes. A marca se especializou em vender sonhos, em traduzir, através de seus produtos, sua filosofia de trabalho e sua forma de enxergar o mundo, como confirma a frase “os melhores presentes vem em uma caixa laranja”. Hermès é um mito, um ícone, uma lenda que representa o que há de melhor (e mais caro) no universo do luxo. 

A história 
A tradicional e sofisticada marca francesa Hermès, que ficou conhecida mundialmente pela cor laranja, começou sua rica história em 1837 quando um seleiro de origem alemã, chamado Thierry Hermès, abriu uma pequena oficina em Paris onde vendia acessórios em couro como baús para carruagens, selas, rédeas, estribos, cintos com porta-moeda, botas e luvas (tanto longas como curtas). A oficina, localizada em uma região de Paris conhecida como Grands Boulevards, onde na época soavam os cascos dos cavalos, foi chamada inicialmente de Caléche, que depois daria nome a um dos mais conhecidos perfumes da grife. Os produtos eram fabricados com tamanho esmero, que em 1867 suas selas mereceram um importante prêmio na Exposição Universal ocorrida em Paris. Essas selas de cavalos eram vendidas para a aristocracia francesa. Em 10 de janeiro de 1878, com o falecimento de Thierry Hermès, Charles-Emile, assumiu a gestão da oficina do pai e, em 1880, se mudou para um local maior, no emblemático endereço 24 Rue du Faubourg Saint-Honoré, onde a loja permanece até os dias de hoje. Além disso, ele passou a vender também outros objetos feitos em couro, como por exemplo, bolsas, pochetes, sacolas e até casacos.
   

A clientela da marca expandiu-se rapidamente e a Hermès começou a atender às necessidades e desejos da elite global. Em 1892, a empresa lançou o modelo de bolsa grande, com fechamento feito por duas tiras que prendiam a “tampa” superior. Na verdade, essa seria a essência da bolsa que viria a se tornar o símbolo da Hermès. Em 1900, com apoio de seus filhos, Adolphe e Emile-Maurice, Charles-Emile desenhou o modelo “Haut a Courroies”, bolsa cuja intenção era permitir que os montadores carregassem suas selas. Pouco depois, em 1902, os filhos de Charles-Emile trocaram o nome da empresa para Hermès Frères (em português, “Irmãos Hermès”). A partir de 1914, com o advento do automóvel, a marca se reinventou. Isto porque, Adolphe e Émile-Maurice, filhos mais novos do fundador, após uma viagem aos Estados Unidos fizeram uma constatação importante: as pessoas estavam viajando muito mais e com maior facilidade. E foi justamente nisso que os irmãos vislumbraram uma enorme oportunidade para a empresa se desenvolver, oferecendo aos consumidores a linha de malas, com formato e fechamento exclusivos. Nesse mesmo ano a empresa começou a fornecer selas ao czar da Rússia e até 80 artesãos de selas eram empregados pela oficina. Com isso, a oficina ganhou direitos exclusivos sobre o uso do zíper em artigos de couro e roupas, tornando-se a primeira marca na França a apresentar este dispositivo.
   

A tradicional técnica do pesponto no couro foi adaptada às linhas de bagagens, bolsas e carteiras em 1918. Nesse mesmo ano a Hermès apresentou o primeiro casaco de couro com um zíper, produzido para o Príncipe de Gales, Edward. Devido ao seu exclusivo acordo de direitos, o zíper se tornou conhecido em toda a França como fermeture Hermès, ou seja, o “fecho da Hermès”. E isso culminou com o lançamento, em 1923, da bolsa BOLDIE, primeiro modelo a ter zíper como fecho, uma grande novidade para época. Pouco depois, em 1924, a marca estabeleceu sua presença nos Estados Unidos e abriu duas novas lojas em resorts franceses. Ainda nesta década, o neto do fundador, Émile-Maurice, começou a desenhar roupas feitas de couro de veado, o que possibilitou o lançamento da primeira coleção feminina de alta costura no ano de 1929.
   

O principal negócio da empresa era a produção artesanal de peças de couro, apesar de ter-se tornado famosa por dois produtos: a bolsa de couro em forma de trapézio chamada “Kelly” e lenços de seda com motivos equestres (introduzidos em 1937). A fama internacional dessa bolsa tiracolo se deve a princesa Grace Kelly. A bolsa de couro, que inicialmente foi batizada de Sac-à-Depêches, foi criada em 1935 e tinha um formato em trapézio, alça curta e fecho em metal. O nome Kelly, adotado oficialmente em 1956, foi uma homenagem da marca à princesa de Mônaco, afinal ela jamais se separava de suas bolsas Hermès, principalmente em suas frequentes aparições na então cultuada revista americana Life. A mais famosa dessas fotos mostrava a princesa tentando cobrir a barriga com a bolsa Hermès para supostamente esconder a gravidez.
  

Ainda na década de 1930, a marca se expandiu para o mundo da alta relojoaria, estabelecendo uma parceria com a Universal Genève. Em 1940, quando a Segunda Guerra Mundial fez praticamente sumir o estoque da embalagem (caixa) de cor bege utilizada pela grife, foi preciso ser trocada pela única cor disponível naquele momento: a laranja. Era o início do surgimento de um símbolo de reconhecimento da marca. Rapidamente, ter um produto embalado em uma caixa laranja, sua cor oficial, passou a ser objeto de desejo de ricos e famosos no mundo inteiro. Quando Émile-Maurice morreu em 1951, seu genro Robert Dumas assumiu o comando dos negócios. Ele foi o responsável pela introdução das tradicionais gravatas, malas de viagens, toalhas de praia e perfumes da marca no mercado. A tradição de criar objetos para a casa vem desde a origem da marca. No início, eram produzidas apenas pequenas peças como cinzeiros e toalhas.
   

Em 1974, surgiu o departamento Maison, na loja da Faubourg Saint-Honoré, em Paris, com a venda dos primeiros conjuntos de toalhas impressas, conhecidas como Léopards. Atualmente, o departamento de lifestyle do grupo desenvolve coleções de mobiliário para escritório, mesa e tapeçarias. Nos anos de 1980, a marca francesa conquistou um ar despretensioso, sem jamais perder o glamour. Depois de uma passagem gloriosa do designer belga Martin Margiela, a Hermès contratou em 2003 o renomado Jean-Paul Gaultier para assumir o posto de estilista chefe da grife. Gaultier, que ficou sete anos no comando criativo da marca, foi substituído em 2011 por Christophe Lemaire, que assumiu a divisão feminina de prêt-à-porter.
  

Outra aposta da marca francesa foi a criação em 2009 da PETIT H, cuja missão é reaproveitar de forma criativa os materiais descartados em suas oficinas. Comandada por Pascale Mussard, tataraneta do fundador da empresa, tiras de couro e sobras de seda e tecidos se transformam em produtos. Tiras de couro viram molduras de espelho. Cavalinhos e bichos de pelúcia nasceram de sobras de tecido. Uma sineta de cristal era, antes, uma taça com defeito no cálice. Com isso, a marca francesa evita o descarte de material e ainda fatura. Uma carteira de crocodilo, pequena, sai por US$ 70. Uma pulseira de metal revestido de tecido, o mesmo dos lenços, custa aproximadamente US$ 300. Já entre os itens de decoração, um dos mais caros é um enorme urso panda, feito de sobras do couro de bolsas e roupas. Preço do mimo: US$ 100 mil. As peças rodam o mundo em mostras itinerantes nos desfiles da Hermès.
   

A chave do sucesso da grife francesa sempre foi à elegância e a sobriedade em suas coleções. Hermès não é uma marca que segue qualquer estilo. Na verdade, dita tendências, faz estilo. A união entre tradição e inovação, entre tecnologia e talento, é o segredo que confere tamanho frescor a uma marca nascida no século 18, que enlouquece as mulheres mais sofisticadas ao redor do planeta com suas famosas bolsas e echarpes. A demora em conseguir os itens mais celebrados da marca, como a Kelly, uma tradicional bolsa executiva, e a Birkin, feita especialmente a pedido de Jane Birkin (que é co-autora da bolsa), gerou uma das maiores lendas envolvendo a Hermès: a fila de espera.
  

Desde 1837, seis gerações de empreendedores e artesãos apaixonados se dedicam a criar objetos da mais alta qualidade e sofisticação. Desde o início, como fabricante de arreios até as ricas e originais coleções hoje elaboradas, seus valores fundamentais se mantêm os mesmos - liberdade de criação, artesanato primoroso, inovação e excelência.
   

A linha do tempo 
1930 
Lançamento da bolsa PLUME, com seu retângulo clássico carregado por Catherine Deneuve. 
1939 
Lançamento da icônica pulseira Chaîne d’Ancre
1951 
Lançamento do primeiro perfume da marca chamado EAU d’HERMÈS
1958 
Lançamento da bolsa TRIM, feita de lona com bordas de couro, uma das preferidas de Jack Kennedy. 
1961 
Lançamento do perfume CALÉCHE, um dos mais famosos da história, que possuía uma fragrância deliciosa, suave e refrescante, resultado de uma combinação de essências de néroli, bergamota, limão, lírio-do-vale, sândalo e vetiver. 
1969 
Lançamento da bolsa CONSTANCE, modelo a tiracolo com fecho de ferragem em forma de H. 
1972 
Lançamento da primeira coleção de sapatos femininos. 
1974 
Lançamento do perfume feminino AMAZONE
1976 
Lançamento dos famosos braceletes esmaltados. 
1995 
Lançamento do perfume feminino 24 FAUBOURG
1999 
Lançamento do perfume feminino HIRIS
2000 
As sofisticadas porcelanas da marca passam a serem vendidas em suas lojas. 
Lançamento do perfume feminino ROUGE HERMÈS
2005 
Lançamento do comércio online para a venda de seus produtos sofisticados. Inicialmente os produtos somente eram entregues na França, Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha. Hoje o comércio online da marca está presente em aproximadamente 40 países. 
2007 
Foi responsável pela criação do helicóptero mais sofisticado do mercado. Tendo como base o elegante modelo EC135 da Eurocopter, o interior do veículo aéreo da grife francesa foi concebido pelo designer italiano Gabriele Pezzini, seguindo a tradição de luxo e sobriedade da marca até os últimos detalhes. Equipado com bancos forrados de pele, frigobar e oferecendo um grande conforto, o helicóptero se tornou o transporte ideal para viagens aéreas de pequena e média distância. Tendo a produção limitada a seis unidades anuais, o EC135 HERMÈS poderia ser personalizado pelo cliente, não só na cor exterior, como igualmente nos materiais utilizados na cabine. 
Lançamento da LINDY BAG, charmosa bolsa que possui várias facetas, é dobrável, tem dois compartimentos distintos e pode ser usada como bolsa de mão ou a tiracolo. 
2010 
Lançamento do perfume unissex VOYAGE D’HERMÈS, inspirado e idealizado pelo perfumista da marca Jean-Claude Ellena. O perfume tem um cheiro almiscarado, fresco e arborizado. Vem em um frasco especialmente concebido e inspirado em uma lupa e possui uma tampa de alumínio que gira revelando o spray. 
Lançamento de uma coleção exclusiva de joias criada por Pierre Hardy. A Hermès, que até então só vendia joias em prata, estreou no segmento da alta joalheria com 14 peças que remetem às raízes equestres da marca e levou dois anos para ser concluída. As joias são feitas sob medida ao gosto do cliente. 
Inauguração de sua primeira loja dedicada exclusivamente ao segmento masculino, localizada na Madison Avenue em Nova York. A enorme loja possui quatro andares. 
2011 
Lançamento do perfume UN JARDIN SUR LE TOIT
2014 
Lançamento da linha LE BAIN, composta por xampu revitalizante, gel tonificante, hidratante para o corpo, leite para o corpo, sabonete e espuma para banho. Todos os aromas foram desenvolvidos a partir dos clássicos perfumes clássicos da marca. 
2020 
Lançamento da primeira linha beauté da marca, composta por produtos labiais (protetores, batons, lápis e pincéis de boca). Somente a linha de batons é oferecida em 24 tonalidades (que variam entre acabamentos matte e acetinado).


O símbolo 
Audrey Hepburn usou-os envoltos na cabeça. Grace Kelly fez deles uma tipoia. Madonna preferiu pendurar na alça da bolsa. O primeiro lenço de seda Hermès, conhecido em francês como “carré” (que significa “quadrado”) e inspirado nos modelos usados pelos cavaleiros, foi lançado em 1937 e rapidamente se tornou objeto de desejo de milhares de mulheres que os ostentavam como um sinal de classe e poder. O primeiro desses lenços era branco e estampado (um desenho de senhoras cercadas por várias carruagens públicas puxadas a cavalo). Para a promoção desta peça de 90 cm² e pintada à mão, muito contribuíram nomes famosos como a rainha Isabel II da Inglaterra, Grace Kelly, Audrey Hepburn, Catherine Deneuve, Jacqueline Bouvier Onassis e mais recentemente Sharon Stone, Sarah Jessica Parker, Hillary Clinton, Elle Macpherson e a cantora Madonna. Ao longo dos anos um dos principais ícones da grife francesa inovou: em 1980 o modelo original foi modificado e surgiu o modelo com efeito plissado; o “Gavroche”, de 45 cm², inspirado no lenço masculino; em 2001, Martin Margiela, na época diretor artístico da marca, concebeu uma versão mais alongada e outra batizada de “Losange”, na forma de um losango; e ainda surgiram os carrés “tecnológicos” como Eva e Flacons, o primeiro a prova d’água e o segundo perfumado.
   

Desenhados por artistas conhecidos, os lenços seguem um longo processo de criação e fabricação, que pode chegar a 30 messes, e necessitam em média de 24 cores diferentes, mas elas podem chegar a 42. São vários modelos, longos, triangulares e quadrados, e o mais famoso é o carré Hermès de 90×90 cm. Um luxo tipicamente francês. O sucesso destes lenços não se mede apenas por quem os usa, mas também pelo número de pessoas que os compram: a cada 25 segundos é vendido um novo exemplar em algum lugar no mundo, principalmente no período do final de ano. Por ano são lançadas duas coleções contendo 12 lenços que custam em média US$ 375 cada.
   

Os tradicionais lenços de seda são feitos, até hoje, de forma artesanal em um ateliê na cidade de Lyon (região sudeste da França), que produz mais de 1 milhão de unidades por ano. Toda seda utilizada pela Hermès é oriunda a partir de criações de bichos-da-seda no interior de São Paulo e do Paraná. Para fabricar um carré de 90 cm², são necessários os fios de 300 casulos, totalizando 450 km. Cada um dos lenços tem um tema específico e também as iniciais do desenhista que criou a estampa, como se fosse uma gravura de 65 gramas. Calcula-se que já tenham sido fabricadas 2.500 estampas por diferentes designers e artistas plásticos. Os lenços são tão importantes para a marca, que recentemente a Hermès criou o aplicativo Silk Knots, uma plataforma que mostra inúmeras maneiras de se amarrar um lenço, além de apresentar novos modelos, informações, novidades e novas formas de usar a peça.
  

A grande estrela 
A bolsa Birkin é uma das grandes estrelas na constelação de produtos da Hermès. Este modelo de bolsa surgiu de uma situação inusitada: no ano de 1981 em um voo entre Paris e Londres a cantora e atriz inglesa Jane Birkin (foto abaixo) viajava ao lado de Jean-Louis Dumas, herdeiro e então presidente da Hermès. Durante a viagem ela reclamou que não existia no mercado uma bolsa grande e prática o suficiente para a vida de uma mulher moderna. O presidente atendeu sua solicitação e lançou a famosa bolsa de ouro flexível em 1984. Inicialmente oferecida ao preço de US$ 2 mil, a bolsa era direcionada para a mulher moderna, pois era funcional, elegante, além de ser grande o suficiente para viajar e com fechos que não deixavam que o conteúdo caísse. Atualmente o preço desta bolsa, um dos maiores sucessos da marca até os dias de hoje, começa em US$ 11.000 e pode alcançar facilmente cinco dígitos. A preciosidade pode ser encontrada em vários tamanhos (25, 30, 35 e 40 cm de largura) e está disponível em diferentes cores (só em azul, são mais de 20 tons diferentes) e tipos de couro.
   

Em 2015, a atriz teve um breve desentendimento com a Hermès no que diz respeito aos métodos de criação de jacarés e crocodilos, cujos couros são utilizados para a fabricação das bolsas. O pedido de Birkin para retirar seu nome das bolsas de couro de crocodilo teve consequências imediatas por parte do fabricante de luxo, que realizou uma série de medidas para satisfazer as exigências da artista, permitindo, então, que seu nome continuasse sendo utilizado na linha icônica de bolsas da Hermès.
   

Já a rara e exclusiva Birkin Himalayan Crocodile é confeccionada com couro de crocodilo do Rio Nilo, tem aparência que remete as majestosas montanhas dos Himalaias e possui detalhes em diamantes e ouro branco 18 quilates. Apenas duas unidades desse modelo são confeccionadas por ano. Uma unidade desse modelo foi vendida ao preço de US$ 380.000 na casa de leilões Christie’s em Hong Kong em 2017, se tornando a bolsa mais cara na história. A Birkin é a queridinha entre as celebridades, como a inglesa Victoria Beckham, que possui cerca de 100 unidades. A mais desejada dessas bolsas é feita de couro de crocodilo, criado em cativeiro, e chega a custar €35 mil. Mas também pode ser feita em couro de bezerro e avestruz. Um detalhe interessante: a Hermès oferece um serviço manutenção e reparos vitalícios para a bolsa Birkin, o que significa que pode ser passada por gerações.
    

Obras-primas olfativas 
A aventura olfativa da Hermès começou verdadeiramente em 1951 com o lançamento do Eau d’Hermès, uma fragrância criada por Edmond Roudnitska, um dos grandes perfumistas da história. O lançamento de Calèche, o primeiro perfume feminino da marca, confirmaria, dez anos mais tarde, o compromisso da marca francesa em criar verdadeiras obras olfativas embaladas em frascos icônicos. Por isso, os perfumes são pensados, elaborados e produzidos como verdadeiros poemas. Muitos desses perfumes foram criados a partir da inspiração de Jean Claude Ellena (que por mais de 10 anos - 2004 a 2016 - foi o perfumista da marca francesa) e de seu talento para transformar, como ninguém, mensagens em aromas. Tanto investimento por parte de uma marca famosa por suas bolsas e acessórios em couro se justifica: a cada dois itens vendidos pela Hermès, um é perfume. Suas últimas novidades no segmento são Épice Marine (lançado em 2013 e cujo frasco de 100 ml custa chega a custar R$ 825); Twilly d’Hermès (2017), um perfume colorido com pimenta rosa vibrante, rosa fresca e patchuli distinto; e H24, um perfume masculino lançado em 2021. Ao longo de sua história a marca já criou e lançou no mercado mais de 115 perfumes.
  

Um lugar mítico 
Assim pode ser descrito o número 24 da badalada rua Faubourg Saint-Honoré. Afinal é neste endereço da cidade de Paris que desde 1880 está instalada a principal loja da grife Hermès. O enorme e mítico prédio tem seis andares e mais três no subsolo. E é justamente em um ateliê especial, no sexto andar da loja, que a marca retorna as suas origens. Ali são produzidas à mão, mensalmente, aproximadamente 35 selas para cavalo. Cada sela custa, em média, €4.000. Se for um projeto especial, o preço dobra.
   

As vitrines da loja são tão famosas quanto suas caras bolsas e lenços de seda, expostos dentro da enorme loja como se fossem objetos de arte. Durante 35 anos, a artista plástica tunisiana Leïla Menchari (falecida em 2020 aos 92 anos vítima da COVID-19) foi responsável por criar os cenários encantadores das vitrines. Desde 1978 a tunisiana criou mais de cem temas nas vitrines e cada um era uma viagem deslumbrante. Ela levou a arte da vitrine a um novo nível com uma expressão estética que mesclava Oriente e Ocidente, enquanto evocava beleza, luxo e sensualidade. A mais famosa das tantas vitrines da loja é uma em forma de triângulo na esquina, que tem 12 m² e era sempre o apogeu de sua mente criativa e a que fazia todo mundo parar e admirar. A vitrine é renovada a cada três meses, uma por estação do ano. E cada uma delas conta uma história fantástica, atraindo turistas de todas as partes do mundo.
   

A produção artesanal 
Cada produto Hermès é exclusivo. E caro. Modelos de bolsas feitos de couro de crocodilo podem chegar a R$ 180.000. Ainda hoje, mais de 180 anos depois de sua fundação, a empresa continua trabalhando com o mesmo padrão de qualidade e sempre primando pelo trabalho artesanal, pela exclusividade dos produtos e pelo valor agregado em cada peça. A Hermès se orgulha de ser uma empresa moderna, atual, mas que nunca deixou de perder sua identidade e preocupação em elaborar produtos que sejam fruto do talento humano, muito mais que da tecnologia. Todos os dias, cada um dos mais de 5.200 artesões que trabalham nas 43 oficinas do grupo se dedica a produção de uma única peça, do começo ao fim do processo. O principal ateliê de artigos de couro, onde são produzidas as bolsas mais desejadas do mundo, está localizado em Pantin, uma cidadezinha na periferia da capital francesa, e onde trabalham aproximadamente 400 artesões. A empresa tem mais nove centros de produção espalhados pela França, onde dão expediente outros 2.000 especialistas em fabricar os produtos em couro.
  

A Hermès definitivamente não foi afetada pelas ideias do americano Henry Ford, que criou a linha de montagem. Tudo é fabricado sem pressa, no tempo exigido para garantir que cada detalhe receba a atenção necessária. Cada artefato que sai de seus ateliês é assinado pelo profissional que o fez, permitindo assim rastrear com precisão eventuais defeitos de cada peça. Uma bolsa Hermès que precise de conserto será reparada pelo mesmo artesão que a confeccionou. A produção escassa é o que garante a Hermès uma aura de exclusividade. E todas as peças são “Made in France”. Essa situação é mais evidente no segmento de bolsas, o produto de maior sucesso da marca. Para ter acesso a alguns dos modelos Birkin ou Kelly, os mais cobiçados do planeta, é preciso esperar dois anos e pagar aproximadamente R$ 60.000. Apesar de relativamente pequena, a Hermès tem conseguido se destacar em meio a um universo dominado por poderosos e gigantescos conglomerados de luxo. Para garantir este status a marca mantém uma intransigência quase visceral em relação aos padrões exigidos para as matérias-primas empregadas na confecção de seus artigos.
   

No início de 2007, os diretores da empresa dispensaram um lote inteiro de pele de crocodilo simplesmente porque a tonalidade apresentada pelo couro do animal, levemente amarelada, não condizia com a cor esperada pela marca. As clientes que estavam na fila à espera de uma bolsa feita com o material, uma das mais caras da grife francesa, estimada na época em R$ 80.000, tiveram que se conformar com um novo prazo de entrega, dois anos mais tarde. Apesar deste incidente, não houve desistência nos pedidos. Por isso, hoje em dia, existem filas de espera quilométricas para alguns desses produtos, com destaque para os acessórios de equitação e as bolsas Kelly e Birkin. Somente 4% do couro de cada fornecedor é aprovado pelo crivo dos funcionários, treinados para perceber o mais sutil dos defeitos - se um crocodilo foi mordido por outro, por exemplo, seu couro é recusado. Por isso, recentemente a Hermès investiu na criação própria de crocodilos para produção de couro e assim confeccionar boa parte de seus produtos. E, para garantir a integridade da pele do animal, mantém os bichos separados, para não brigarem. As bolsas também podem utilizar couro de avestruz da África do Sul e do lagarto da Ilha de Java.
   

Tamanho cuidado reflete no preço e na escassez da peça. Uma “Birkin Croco” é quase tão rara quanto uma joia de rubi. Para estipular o valor de cada modelo de bolsa são levados em consideração três fatores: o tamanho, a matéria-prima utilizada e o tempo para a confecção (um processo que dura de 24 a 48 horas) - isso sem adição de impostos de cada país. Por exemplo, uma bolsa Kelly de crocodilo tamanho 28 custa em média €15.000. E um terço disso se for de couro de bezerro Box. Se todas as variações de tamanho, cor, matéria-prima e detalhes oferecidos pela marca - só o modelo de bolsa Kelly pode vir em 200 combinações - não forem suficientes para satisfazer as clientes mais exigentes, a Hermès mantém ainda um ateliê de encomendas especiais para atender a qualquer capricho.
  

A evolução visual 
A identidade visual da marca passou por remodelações ao longo dos anos. Depois de adotar várias tipografias de letra, na década de 1950 surgiu o famoso logotipo da marca como conhecemos hoje. O logotipo é formado pela imagem de uma carruagem e seu condutor, que remete diretamente ao passado histórico da empresa. Esse símbolo, que se transformou em um verdadeiro símbolo da marca francesa, foi desenvolvido a partir da obra de 1830, chamada “Le Duc Attelé”, de autoria do artista Alfred de Dreux. O desenho foi comprado por Emile Hermès, então no comando da tradicional empresa. Outra característica de reconhecimento da marca também está presente no logotipo: a cor laranja.
  

Os slogans 
Beauty is a Gesture. (2020) 
It starts with a dream. (2019) 
The best gifts come inside the orange box! (2006) 
Mediterranean harvest. (2003) 
It’s all in the gesture. (2002) 
Encounters with the earth’s beauty. (2001)
   

Dados corporativos 
● Origem: França 
● Fundação: 1837 
● Fundador: Thierry Hermès 
● Sede mundial: Paris, França 
● Proprietário da marca: Hermès International S.A. 
● Capital aberto: Sim (1993) 
● Chairman & CEO: Axel Dumas 
● Diretor criativo: Nadège Vanhee-Cybulski 
● Faturamento: €6.88 bilhões (2019) 
● Lucro: €1.52 bilhões (2019) 
● Valor de mercado: €96.4 bilhões (fevereiro/2020) 
● Valor da marca: US$ 17.961 bilhões (2020) 
● Lojas: 311 
● Presença global: 70 países 
● Presença no Brasil: Sim 
● Funcionários: 15.650 
● Segmento: Moda de luxo 
● Principais produtos: Artigos em couro, roupas, acessórios, bolsas e perfumes 
● Ícones: A cor laranja e os lenços de seda 
● Slogan: The best gifts come inside the orange box! 
● Website: www.hermes.com 

O valor 
Segundo a consultoria britânica Interbrand, somente a marca Hermès está avaliada em US$ 17.961 bilhões, ocupando a posição de número 28 no ranking das marcas mais valiosas do mundo de 2020. 

A marca no Brasil 
Somente no mês de setembro de 2009 a tradicional grife francesa desembarcou no país com a inauguração de uma luxuosa loja no sofisticado shopping Cidade Jardim em São Paulo. A decoração era impecável: o piso de mármore moleanos veio de Portugal; a mobília, de madeira cerejeira, da França; e as luminárias patenteadas, da Alemanha. Na quarta loja da marca na América Latina são comercializados cinco mil itens das 17 linhas, todos bem organizados por temas e cores. Tem gravatas e os tradicionais lenços de seda, joias de prata e perfumes, enxoval de bebê, artigos de decoração, sapatos, roupas e até selas e estribos. E, é claro, as cobiçadas bolsas. Há 40 modelos diferentes disponíveis na loja, incluindo as famosas e desejadas Birkin e Kelly. A marca possui mais duas lojas no país: uma em Ipanema, no Rio de Janeiro; e outra, inaugurada em 2017, localizada no Shopping Iguatemi, em São Paulo. 

A marca no mundo
A marca está presente fisicamente em mais de 45 países através de 311 lojas próprias (mais espaços dentro de sofisticadas lojas de departamento - chamadas Store In Store) que vendem artigos de couro, perfumes, bolsas, lenços, roupas, joias, relógios, gravatas, sapatos, entre outros produtos. Com mais de 15 mil funcionários e vendas em mais de 70 países, o Japão representa o maior mercado para a marca (seguido por França, Estados Unidos e China), que fatura mais de €6.8 bilhões (dados/2019). Atualmente a marca possui mais de 15 linhas de produtos, que incluem a moda feminina criada por Nadège Vanhee-Cybulski; a moda masculina criada por Véronique Nichanian; uma exclusiva linha de sapatos femininos, joias e maquiagens, criadas por Pierre Hardy; e até produtos exclusivos sob encomenda, que podem variar de uma caixa para violão ao interior de um carro, helicóptero, iate e até mesmo apartamentos. Gravatas (que custam no Brasil a partir de R$ 700) e os famosos lenços de seda (a partir de R$ 1 mil), junto com perfumes vendidos em Duty Free em aeroportos do mundo todo e as bolsas, garantem a maior parte do faturamento da marca. 

Você sabia? 
Os produtos em couro representam 35% do faturamento da marca e as roupas 20%. 
Desde sua inauguração a grife francesa raramente fechou uma loja no mundo. 
A marca francesa tem uma forte relação com o hipismo. Por exemplo, é parceira do cavaleiro brasileiro Rodrigo Pessoa em seus trajes de equitação. Hermès ainda é patrocinadora oficial de todo o material para a prática da equipe americana de hipismo. 


As fontes: as informações foram retiradas e compiladas do site oficial da empresa (em várias línguas), revistas (Vogue, Elle, Fortune, Forbes, BusinessWeek, Veja, Exame e Isto é Dinheiro), jornais (Valor Econômico, Estadão e Folha), sites de moda (Pure Trend), sites especializados em Marketing e Branding (BrandChannel e Interbrand), Wikipedia (informações devidamente checadas) e sites financeiros (Google Finance, Yahoo Finance e Hoovers). 

Última atualização em 10/2/2021

4 comentários:

Idealização: Renata Chaves disse...

Olá, adorei seu blog... adorei as informações.. e gostaria tb de estar te passando o blog de um estilista o qual gosto bastante, a 50 anos no mercado gaúcho foi o primeiro brasileiro a estudar moda e paris. coferi pra vc ver
Abraços, Renata.
http://estilistaruispohr.blogspot.com

Paula Talmelli disse...

Olá, amei o seu blog. O conteúdo é maravilhoso.
Eu trabalho com marketing e estou me especializando em moda agora. Com certeza seu blog será uma fonte para minhas pesquisas.
Eu também tenho um blog, com dicas de moda, dentro do site da minha grife de acessórios.
Se vc quiser conhecer, acesse: www.paulatalmelli.com.br
E qualquer dica ou comentário sobre minha marca será muito bem vindo.
Parabéns!

Um abraço,
- Paula Talmelli

PALHAÇO PURURUKA disse...

Muito boa a matéria

Déborah disse...

Para quem gosta de moda taí um blog que me deixou super informada sobre a marca Hermes❤️ amei todas as informações